Existe mesmo uma hora certa de deixar o mercado de trabalho? Para muita gente, a aposentadoria ainda funciona como um interruptor: um dia se trabalha, no outro não. Mas, a vida produtiva raramente termina nessa data.
À medida que envelhecem, muitos profissionais relatam subutilização, perda de propósito e exclusão crescente, mesmo que o sentimento de produtividade e a experiência ainda estejam lá. Por outro lado, empresas lidam com equipes jovens ainda em formação, baixa tolerância à pressão e dificuldade de dialogar com um consumidor que também envelhece. As duas pontas se complementam. Ainda assim, seguem desconectadas.
Mesmo quando existe interesse dos dois lados, o modelo tradicional CLT não ajuda. Empresas hesitam em contratar profissionais maduros pelo custo de benefícios, especialmente o de saúde e, também, por preconceito. Esquecem que quem acumulou décadas de experiência já não busca o mesmo que antes. A “agenda prateada” valoriza, cada vez mais, autonomia e flexibilidade.
Há uma parcela da população que conseguiu poupar ao longo da vida para o próprio envelhecimento. Ao sair do emprego tradicional, não abandona a ambição. Redefine o que a ambição significava.
É o caso de Maria Lucia Pontes Capelo Vides, ex-superintendente do Hospital Edmundo Vasconcelos, em São Paulo (SP). Por decisão própria e depois de mais de 40 anos na instituição, ela decidiu ser mais dona de seu próprio tempo, escolhendo como e onde aplicar décadas de experiência em gestão de organizações complexas.
“Levo comigo aprendizados, valores e experiências que permanecem vivos e seguem orientando minhas escolhas“, diz.
Para a CEO da Talento Sênior, Juliana Ramalho, esse é o perfil do trabalhador da economia prateada: experiente, seletivo e produtivo. “Esses profissionais aceleram a inovação e conseguem trazer para as empresas talento sob demanda, aumento da eficiência e profissionalização da gestão, com impacto direto no crescimento sustentável”, destaca.
A Talento Sênior é uma das marcas que vem apostando nas oportunidades deste novo mercado. Por meio do modelo Talent as a Service (talento como serviço, na traduação literal), a empresa facilita o acesso à força de trabalho 45+ de forma pontual, sem o custo e a rigidez da contratação tradicional.
Com o mesmo propósito, a Maturi nasceu em 2015 como uma plataforma de conexão. Hoje, ampliou sua oferta para capacitar profissionais, treinar lideranças e certificar boas práticas. Já conectou mais de 1.100 empresas parceiras e possui mais de 260 mil profissionais em sua base. A lógica é simples: preparar o profissional, transformar a cultura organizacional, depois conectar.
Em outro exemplo, o InovaSenior foca em engenheiros 60+, usando inteligência artificial para conectar repertório técnico acumulado a empresas e instituições que enfrentam escassez real de mão de obra qualificada.
O que essas três iniciativas revelam, cada uma ao seu modo, é que as novas oportunidades de negócio nesse mercado já têm endereço: plataformas de conexão, modelos de trabalho por projeto, consultorias de transformação cultural e educação contínua. Iniciativas distintas convergindo para o mesmo argumento: a longevidade é uma força econômica real, não uma tendência a observar de longe. É uma mudança que já começou a redesenhar o mercado.
*Gilmara Espino acompanha de perto o mercado 60+ e traz para a Times Brasil, tendências e casos práticos que revelam como esse fenômeno está abrindo novas frentes de negócio.
Gilmara Espino é professora do MBA de Gestão em Saúde do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e presidente da GPeS Comunicamos Saúde.
Fonte: https://timesbrasil.com.br/colunas/economia-prateada/longevidade-produtiva-como-aproveitar-a-experiencia-60/
